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Retorno da produção de bens supera serviços

Rendibilidade, substantivo feminino: qualidade do que é rendível e aptidão para produzir ou dar renda.
 
No balanço de uma empresa, os indicadores  de  rendibilidade  económica  traduzem o nível de retorno dos negócios – fluxos de valor gerados a partir das vendas de produtos ou prestações de serviços. 

Já a rendibilidade financeira mede o retorno do capital empregado pelo acionista. No retrato das 1000 maiores empresas, desenhado pela consultora Ignios, as produtoras de bens apresentam uma rendibilidade  económica  média  superior  às  empresas de serviços. A supremacia explica-se pelo facto de “haver diversas empresas produtoras de capital intensivo a precisar de investimento elevado e de menos custos com pessoal”, arrisca a Baker Tilly. Já no caso da rendibilidade financeira, os valores são mais equilibrados. As 1000 maiores empresas representam  55,7%  do  total  do EBITDA recorrente das sociedades não financeiras e têm uma rendibilidade económica de 9,9%, superior à de 9,1% do total de referência. 

“As maiores empresas têm um peso de 45,8% no resultado líquido de impostos total, com uma rendibilidade financeira inferior de 5,1% contra 11,1% da referência”, detalha a consultora.

Na prática, valores médios de rendibilidade dos capitais próprios (ROE na sigla anglo-saxónica) significa que as empresas lucraram 5,1 euros por cada 100 euros de capital investido pelos acionistas. Este é um dos rácios financeiros mais importantes, já que  mede  a  capacidade  de  uma  empresa gerar lucros a partir da sua situação líquida, além do potencial em aplicar investimentos para os resultados.  Na  produção de bens, a rendibilidade do top 10  ascende a 33,6%, enquanto a média financeira se situa em 40%. Sobressaem as indústrias automóvel, alimentar, saúde e metálica.

A Continental Mabor do grupo alemão de pneus Continental, a Sarreliber do grupo francês Sarrel de metalização plástica e a BA Vidro são as sociedades do pódio.

Nos serviços, a rendibilidade económica média das 10 melhores fixa-se em 23,2%, enquanto a financeira é de 56%. Nesta tabela salta à vista a performance das empresas de saúde, que contam com dois representantes – Hospital Cuf Descobertas e Hospital da Luz. “No entanto, à semelhança de várias empresas do sector industrial, os hospitais são tendencialmente empresas com investimentos muito elevados, pelo que os seus preços têm de refletir não só os custos operacionais mas também a margem necessária para remunerar o investimento realizado”, justifica a Baker Tilly. 
 
Merece ainda destaque o sector da informação e comunicação. A TVI ocupa o 2.o lugar e a SIC o 9.o. “Enquanto a TVI apresenta a melhor rendibilidade económica (36,7%), a SIC destaca-se sobretudo pela sua elevada rendibilidade financeira (61,7%)”, refere a mesma consultora.  
Ao  contrário  das  empresas  de  bens, maioritariamente situadas a norte do país, as fornecedoras de serviços do topo da lista localizam-se em Lisboa e Vale do Tejo.

Os  especialistas  contactados  pelo Dinheiro Vivo sugerem pistas para melhorar a performance deste indicador.

João Duque, professor do ISEG, refere que o investimento produtivo é o caminho para  melhorar a rendibilidade do tecido empresarial português. 

O professor Carlos Pereira da Silva complementa: “Muitas empresas dependem do endividamento como fonte primária dos seus investimentos, endividamento que diminuiu a sua rendibilidade.” Luís Mira Amaral, antigo ministro e presidente do Banco BIC, salienta que o discurso de apoio às pequenas e médias empresas não terá qualquer consequência “se não for concretizado em ações de redimensionamento empresarial”. “As pequenas empresa têm de ter a ambição de se tornar médias e estas têm de ambicionar tornar-se grandes.” 

Para Francisco Sarsfield Cabral, a política expansionista do PS poderá melhorar a rendibilidade apenas para algumas empresas, sobretudo na área da restauração.

Continental Mabor Fórmula para acelerar “à la Lousado”

Poucos anos antes da década de 50, nascia a Mabor – Manufatura Nacional de Borracha, pelas mãos do terceiro conde da Covilhã, Júlio Anahory de Quental Calheiro.
 
Reza a lenda que Mabor é também a sigla de Maria Borges, a segunda esposa do conde. Instalada na freguesia de Lousado, em Vila Nova de Famalicão, a empresa é a pioneira da indústria de pneus em Portugal e ganha escala quando a Autoeuropa chega a Portugal em 1989. Na altura, o Estado exigia a incorporação de componentes feitos no país, o que representaria uma oportunidade para a Mabor.

Atenta, a Continental – já acionista da fábrica – avançou com uma joint-venture para ficar com 60% da Mabor, mas rapidamente passou a acionista única. Hoje, a fábrica de Lousado é considerada um case study pela AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de  Portugal. “A unidade portuguesa é hoje uma das mais modernas do grupo alemão e produz pneus de todos os tipos quer em medidas, quer em tipos, quer em marcas para veículos automóveis ligeiros. Ao todo, produz 800 artigos de 20 marcas diferentes. Exporta quase a totalidade da produção (97,3%) e tem como principais mercados a Alemanha, o Benelux, a Espanha, a França, o Reino Unido e a Itália”. 

De acordo com os dados da Ignios, a empresa liderada por Pedro Carreira teve um volume de negócios superior a 758,6 milhões de euros em 2014. Ocupa a 21.ª posição entre as 1000 maiores do tecido empresarial. E é líder há vários anos no setor da borracha e matéria plástica que, no ano em análise, faturou 1,8 mil milhões. 

Com resultados líquidos na ordem dos 182 milhões milhões e ativos de quase 400 milhões de euros, a Continental Mabor apresenta um rácio de rendibilidade económica de 37,4% e um rácio de rendibilidade financeira de 70%. Feitas as contas, o fabricante de pneus alcança o primeiro lugar do top ten de bens, segundo a Ignios.

Por sua vez, a Baker Tilly ressalva ainda a dimensão da Continental em relação às outras empresas do top 10. “A Mabor representa aproximadamente 50% do somatório das receitas e EDITDA das empresas dos 10 primeiros lugares do ranking.” “A aposta redobrada da Continental em Portugal resulta de uma boa experiência de investimento. A empresa sempre destacou a qualidade da equipa na transformação dos investimentos em produtos transacionáveis e a sua capacidade em trabalhar num ambiente industrial de elevada complexidade e com produtos de grande dificuldade tecnológica”, sublinha a Aicep na informação sobre a empresa. 
 
Um em cada três automóveis na Europa é comercializado com pneus Continental. Em 575 testes desde 2007, recebeu a classificação mais elevada em 78%. O objetivo em Lousada é elevar a capacidade de produção acima de 20 milhões de pneus/ano. A fábrica de Famalicão dá emprego a 1737 trabalhadores, um complexo com mais de 250 mil metros quadrados. Segundo os dados da Ignios, cada euro despendido com o pessoal gera um retorno de 4,68 euros para o valor acrescentado bruto da empresa. No ADN dos colaboradores há uma característica comum: fazer bem e rápido, ou seja, “à la Lousado”. 

BA Vidro - De três contos de réis a 14 milhões de embalagens em cem anos

A antiga Barbosa & Almeida, hoje BA Vidro, nasceu como pequena empresa de comercialização de garrafas em 1912 pelas mãos de dois jovens caixeiros. Raul Barbosa e Domingos de Almeida, ligados ao negócio de venda de garrafas vindas da Alemanha, decidem criar a sua própria sociedade com um capital de três contos de réis. Em apenas alguns anos, a revendedora de garrafas transforma-se em produtora industrial, graças à compra de uma fábrica em declínio da histórica Companhia das Fábricas de Garrafas de  Amora. Estava dado o primeiro passo para a constituição do maior grupo português de embalagens de vidro.

Com um percurso centenário, a BA cresceu, superou as dificuldades conjunturais, respondeu aos desafios da técnica e do mercado e contabilizou diferentes estruturas societárias e diversos proprietários, chegando a ser cotada na Bolsa de Lisboa e a ter a Sonae como acionista de referência. 

Nos primeiros anos do século XXI, com uma operação de management buy out, o chairman Carlos Moreira da Silva fica com 45% do capital, a Família Silva Domingues outros 45% e os quadros detêm 10%.

No processo de expansão e internacionalização, a BA adquiriu a nacional Sotancro, complementando o seu portfólio com embalagens destinadas à área farmacêutica e de cosmética, e duas vidreiras polacas do Wart Glass Group, entrando no mercado nórdico e de leste. Hoje, o grupo BA tem sete fábricas, que produzem diariamente mais de 14 milhões de unidades – garrafas, frascos e boiões – para clientes das indústrias alimentar e de bebidas. 

No ranking da Ignios está em terceiro no top 10 da rendibilidade global – económica e financeira – das empresas de bens.  

O rácio de rendibilidade económica da BA situa-se em 29,1%, enquanto o financeiro fixa-se em 46,3%. A rendibilidade financeira mede o retorno do capital empregado pelo acionista, atesta a eficiência da empresa a gerar lucros a partir da sua situação líquida e o potencial em aplicar investimentos  para  aumentar os resultados. “O fabricante de vidro tem grande projeção europeia, reconhecida pelas boas práticas de gestão e governance ”, explica a consultora Baker Tilly. “E, embora tenha uma rendibilidade económica inferior à media do top 10, a rendibilidade financeira situa-se em 6,3 pontos percentuais acima da média”, acrescenta.

Em 2014, o volume de negócios da empresa de fabricação de vidro subiu 7,71%, para 331,9 milhões. As exportações pesam 57,6%. Com 969 colaboradores, lucrou 81 milhões e tem um índice de produtividade de 4,35.
 
A BA Vidro é a que mais fatura na área de produtos minerais, um sector que vale 1,7 mil milhões de euros.

Hospital da Luz Investir para duplicar a dimensão à velocidade da Luz  

O atual Grupo Luz Saúde foi criado em 2000 com a designação Espírito Santo Saúde. Considerada uma das joias da coroa, a unidade de prestação de cuidados de saúde sobreviveu ao colapso do universo Espírito Santo. Em fevereiro de 2014,  tornou-se a primeira empresa privada do sector da saúde cotada na Bolsa. Em outubro, a seguradora Fidelidade – detida pelos chineses da Fosun – anunciou a aquisição de 96% das ações da Espírito Santo Saúde, tornando-se o novo acionista  maioritário. 

Apesar de querer garantir a continuidade e manter a identidade do projeto, a empresa alterou a designação para Luz Saúde. 

O Hospital da Luz é a unidade bandeira da Luz Saúde e é uma das principais apostas do plano de expansão das 18 unidades do grupo em curso. A Luz Saúde prevê duplicar a dimensão do Hospital da Luz a partir de 2018 e criar mais de mil postos de trabalho, num investimento total de cem milhões de euros. No ranking da Ignios surge na 183.ª posição entre as 1000 maiores por volume de negócios, com uma faturação de 139 milhões de euros e um lucro de 16,5 milhões. Está no top 10 da empresas de serviços  com  a  rendibilidade  mais  elevada, ainda que abaixo do rácio obtido pelo concorrente Hospital Cuf Descobertas. “Apresenta uma rendibilidade económica razoável (16,1%), mas abaixo da média do top 10, compensada por uma rendibilidade financeira extraordinária (104%)”, descodifica a Baker Tilly.

“A elevada rendibilidade financeira pode dever-se a um capital próprio que, apesar dos resultados positivos, se mantém praticamente inalterado, motivado por distribuições de dividendos regulares (que não se refletem no resultado líquido do exercício)”, justifica a Baker Tilly.

Securitas Direct Alarmes recuam 40 lugares mas lideram top 10 da eficiência

A Securitas Direct subiu  19  lugares no ranking da Ignios em 2014, enquanto a Securitas – Serviços e Tecnologias de Segurança recuou 40 lugares. A empresa de sistemas de alarme está na 744.ª posição entre as 1000 maiores por volume de negócios, mas destaca-se por liderar o top 10 da rendibilidade entre as fornecedoras de serviços. De acordo com os dados da consultora, a Securitas Direct tem uma rendibilidade económica de 37,7% e financeira de 65,6%. Feitas as contas, a empresa ganha a medalha de ouro graças à sua capacidade em gerar cash-flow e à taxa de retorno dos capitais investidos. Porém, como na análise as empresas do mesmo grupo estão desagregadas, a Securitas Serviços e Tecnologias de Segurança surge na 212.ª posição, com uma rendibilidade financeira de 12,4%.
 
Em 2014, a Securitas Diret faturou 42,7 milhões e o lucro disparou 65%, para mais de 7,7 milhões. Com 22 delegações em Portugal e na Madeira, a empresa atingiu a barreira dos cem mil clientes e evitou mais de 2700 assaltos neste ano. A empresa garante que o tempo médio de resposta dos seus profissionais de segurança não vai além de 33 segundos.

A Securitas Direct nasceu como subsidiária do grupo sueco Securitas AB, tornando-se  uma  empresa independente.

Hoje, está presente em 14 países, tendo iniciado a comercialização de alarmes em terreno nacional em 2001. Em 2014 assinalou seis anos de liderança no mercado português.

Ignios 15/01/2015