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Bolsonaro não restabeleceu confiança na economia brasileira

"A nossa economia está estagnada, não está crescendo, está andando para trás há alguns anos, designadamente desde o segundo mandato da Presidente Dilma Rousseff", afirmou Fernando Henrique Cardoso, em entrevista à Lusa em Lisboa, onde se deslocou esta semana para participar numa conferência internacional sobre droga.

"A taxa de desemprego é muito elevada. É por volta de 12 a 13% da população ativa", afirmou, considerando que o país vive "uma situação difícil, que requer medidas para restabelecer o crescimento".

O sociólogo propõe mudanças estruturais: No Brasil, "o modelo de utilização de recursos gerados pela economia é um modelo desigual, muito desigual. Então ao mesmo tempo têm de se tomar medidas que aliviem esta desigualdade".

Por isso, é preciso investir no bem-estar das pessoas, na saúde, educação e também na segurança pública, considerou.

O ex-Presidente, cujo mandato ficou marcado pelas privatizações e a consolidação do Plano Real para a estabilização da moeda brasileira, apontou o dedo aos erros políticos e à conjunta internacional como os principais motivos para a crise sistémica

O Brasil tem uma economia alicerçada na agricultura e exploração de minérios. "Ora nós não controlamos o preço nem de um nem de outro [setor] , são commodities, que quem controla é o mercado internacional", afirmou.

No seu entender, o país "é, talvez, o país mais industrializado da América Latina, mas talvez nós não tenhamos os elos com a inovação necessários e o mundo moderno inova muito", disse, dando o exemplo daquilo que classificou como a "revolução da inteligência artificial" ligada à indústria, em que o "Brasil está um pouco à margem desse processo".

A crise das finanças públicas está a provocar um aumento da dívida pública: "o endividamento é crescente e o governo gasta mais do que recolhe. E recolhe menos porque a economia não cresce, mas sobretudo porque as reformas não foram feitas, especialmente as da previdência social e a tributária".

"Então não são problemas só de conjuntura, mas há problemas de orientação" interna que contribuem para a crise, considerou.

"No Brasil o que mais falta neste momento é estratégia, para onde é que nós vamos. Dá impressão que estamos fazendo uma transição, mas não se sabe para que lado vai, o que é que vai ser a alavanca que vai restabelecer a confiança", disse à Lusa Fernand Henrique Cardoso.

Na sua opinião, "os grandes erros começaram no Governo de Dilma Rousseff, em que se instalou a ideia de que se pode consumir sem produzir", mas o "governo atual não conseguiu restabelecer essa confiança. E esse é o problema mais sério que existe no momento"

"Sem confianças não há investimento e sem investimento não há emprego, não há renda que aumente. E essa é a questão central", avisou o ex-chefe de Estado, que admitiu que essa falta de confiança se reflete também na capacidade de atração de investimento estrangeiro, nomeadamente português.

"Acho que o Brasil é um mercado importante, vai ser importante. Somos 210 milhões de pessoas. Isso é muita coisa e já temos uma grande capacidade de compra. E quanto mais puderem investir melhor para elas e para o Brasil", afirmou o sociólogo e político brasileiro, agora com 88 anos.

"Tem de haver confiança no mercado e no Governo. Eu acho que o governo atual não inspira essa confiança. Mas o Brasil inspira. o Brasil tem condições económicas de crescer. Não são todos os países que tem", acrescentou.

O antigo presidente, que cumpriu dois mandatos à frente do Brasil, numa altura em que várias empresas portuguesas, entre elas algumas das maiores da altura, como a EDP e a PT, investiram naquele país, muitas sem sucesso, considera que "olhando a situação, o Brasil tem um mercado tão grande que há várias possibilidades".

Por isso, reforçou: "Apesar destes ziguezagues, eu confio no país". Já "no Governo tenho mais dúvidas".

Sobre Portugal, Fernando Henrique Cardoso recordou que teve sempre relações de amizade com os políticos portugueses, à semelhança do seu sucessor no Planalto, Lula da Silva. "Isso facilitava bastante o relacionamento", afirmou.

"Já a presidente Dilma [Rousseff, que sucedeu a Lula da Silva] era menos afeita e o presidente Bolsonaro dá a impressão de não ser também desse jeito", considerou.

"Acho que não estamos num momento de grande proximidade" entre os dois países, concluiu.

Mundo ao Minuto, 29/06/2019