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UE e México alcançam acordo de livre comércio e isolam Estados Unidos

A Comissão Europeia anunciou, no passado sábado, que a União Europeia e o México alcançaram um acordo de princípio de livre comércio que, uma vez em vigor, eliminará as tarifas aduaneiras sobre "praticamente todos" os bens trocados entre as duas regiões. Um compromisso que surge num momento em que os Estados Unidos apostam na adopção de políticas proteccionistas e no reforço das tarifas alfandegárias aplicadas à importação de bens.

Este acordo confirma a intenção já anunciada ainda no ano passado pelos dois blocos, que afirmaram então querer agilizar as conversações com vista a actualizar a convenção em vigor, datada de 2000.

O sector agrícola europeu é o que mais beneficiará, em especial bens como queijo, chocolate, massas, ou carne de porco. Haviam sido precisamente as diferenças de pontos de vista relativamente à liberalização do comércio de produtos agrícolas a bloquear nos últimos anos as conversações entre a UE e o México. A Comissão explica que as tarifas aplicadas às exportações europeias de produtos como queijos ou carne de porco para o México vão diminuir em até 20%.

Este acordo surge numa fase delicada em que os Estados Unidos ameaçam sair do NAFTA (acordo de livre comércio com Canadá e México) e impor novas taxas aduaneiras às importações oriundas do México. E também depois de Washington ter reforçado as taxas aplicadas às importações de produtos chineses bem como a imposição de novas tarifas sobre a importação de aço e alumínio.

O presidente francês, Emmanuel Macron, está esta semana nos EUA, para onde irá ainda este mês a chanceler alemã, Angela Merkel, com os dois líderes a terem como ponto principal da agenda discutir a garantia de uma isenção permanente - para já é apenas temporária - concedida por Washington à importação daqueles metais feita a países da UE. 

Trata-se de uma forma de o México diminuir a dependência em relação ao comércio bilateral com os EUA e, em simultâneo, de a própria UE mostrar a Washington que não ficará paralisada depois de o presidente americano, Donald Trump, ter abandonado as negociações para o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP).

A comissária europeia para as relações comerciais da UE, Cecilia Malmström, adiantou que o objectivo de ambas as partes passa por firmar um acordo final até ao final deste ano. "Em menos de dois anos, a UE e o México terão forjado um acordo capaz de lidar com os desafios económicos e políticos do século XXI", declarou a comissária.

Já numa indirecta a Trump, Cecilia Malmström sustentou que este acordo de princípio "também envia uma forte mensagem a outros parceiros de que é possível modernizar as relações comerciais existentes quando ambos os parceiros partilham a convicção dos méritos da abertura [comercial] e do comércio livre e justo".

Merkel considera que este compromisso "é uma boa notícia para a Europa". Numa cimeira realizada este domingo em Hannover, em que participou também o presidente mexicano Enrique Peña Nieto, a chanceler pediu "rapidez" na execução do trabalho técnico ainda necessário. Por sua vez, Nieto disse estar confiante numa conclusão favorável da "renegociação e modernização" do NAFTA.

 
Estados Unidos mais isolados no proteccionismo

A União deu assim mais um passo na tentativa de isolar Washington. Além deste acordo de princípio assinado com o México, que tem por base o Acordo Económico e Comercial Global entre a UE e o Canadá (CETA) concluído em 2017, na semana passada a Comissão Europeia propôs a assinatura e conclusão dos acordos comerciais bilaterais com o Japão e Singapura em negociação. A proposta de estabelecimento de relações comerciais preferenciais com estes dois países foi já adoptada pela Comissão e será enviada para o Conselho Europeu para ratificação.

Donald Trump começa a dar sinais de que estará disposto a recuar perante um crescente isolamento na cena internacional. É que a União já teve novos encontros para negociar uma relação comercial mais estreita com a Índia e a China, a que se juntam as conversações em curso com os países do bloco económico da América do Sul (Mercosul). Por outro lado, depois da desvinculação dos EUA da negociação para a Parceria Transpacífico (TPP), os restantes Estados assinaram já o acordo, levando Trump a admitir integrar o acordo se o mesmo for "substancialmente melhorado".

Jornal de Negócios, 23/04/2018