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Desempenho da dívida portuguesa é notável mas ainda existem riscos

Alerta para os riscos que a economia portuguesa atravessa e não antecipa melhorias de “rating” em breve.

A evolução nas últimas semanas das obrigações portuguesas é "notável" e "encorajadora", consideram os analistas do Commerzbank. Mas apesar desses sinais positivos, os especialistas do banco alemão dizem que "ainda é demasiado cedo" para dar alta à economia portuguesa.

Numa nota a investidores divulgada esta quinta-feira, o Commerzbank realça que o desempenho das obrigações portuguesas tem sido "impressionante", tendo em conta as travagens cada vez maiores das compras do BCE. Em Abril, essas compras ficaram pouco acima de 500 milhões de euros. No ano passado houve meses em que o Eurosistema comprou 1.400 milhões em dívida portuguesa.

"O prémio de risco das obrigações portuguesas a dez anos em relação às obrigações alemãs caiu quase 100 pontos base desde o pico de Fevereiro. Isto é notável e encorajador já que ocorre numa altura em que o BCE está a reduzir as compras porque está perto do limite de 33% por emitente", refere o banco alemão.

Portugal continua "vulnerável"

Apesar de ficar impressionado com o desempenho da dívida portuguesa no mercado, o Commerzbank considera que "é demasiado cedo" para deixar de se ser cauteloso com Portugal. Reconhece que apesar de dados melhor que o esperado, como o crescimento no segundo semestre do ano passado e da redução do défice, o País continua "vulnerável".

"Concluímos que Portugal ainda não está fora de perigo, apesar de algumas surpresas positivas", defende o banco. Acrescenta que o "País está a beneficiar actualmente – tal como toda a Zona Euro – de uma economia global mais forte". Mas considera que "o elevado nível de dívida privada e pública apenas é sustentável graças à política monetária ultra-expansionista do BCE".

E avisa: "Se um (ou mesmo ambos) daqueles factores forem retirados da equação, os problemas substanciais que o País ainda atravessa deverão tornar-se novamente mais evidentes. Em particular, poderemos ver o ainda muito elevado rácio de dívida pública subir em resultado disso, o que poderia rapidamente perturbar os investidores".

"Rating" não vai melhorar tão cedo

Ainda assim, apesar dos riscos que enumera para a economia portuguesa, o Commerzbank considera que a recente descida dos juros é justificada, "devido aos dados melhor que o esperado". Mas tem dúvidas que a partir deste ponto possam existir mais progressos. A começar por reduções adicionais do défice.

"O Governo reclamou a redução do défice de 4,5% para 2% como um do seus grandes feitos, já que poucos acreditariam que o conseguisse. Mas 1,4 pontos percentuais, quase metade desta redução, foi devido ao efeito do défice de 2015 ter sido inflacionado pela recapitalização do Banif", refere o Commerzbank.

E expressa dúvidas sobre as metas do Governo para 2017 e 2018: "Como o investimento de longo prazo não pode (nem deve) ficar no nível baixo de 2016, não se pode falar de uma consolidação sustentada das finanças públicas no ano passado. Com o investimento a aumentar e a despesa com juros a deixar de baixar, será difícil empurrar o défice para 1,5% este ano e 1% em 2018".

Assim, antecipa que "o rácio de dívida de 130% desça apenas de forma lenta". Factor que poderá levar a que as agências de "rating" ainda demorem tempo a colocar Portugal em grau de investimento. "As maiores agências de 'rating' (Moody’s, S&P e Fitch) ainda avaliam o País em nível de subinvestimento, o que reduz significativamente o círculo de potenciais investidores. E é improvável que estas agências melhorem os "ratings" antes de 2018", antecipa o banco.

E ressalva que para o fazerem "o défice orçamental tem de facto de ter reduções adicionais, o rácio de dívida retomar uma clara tendência de descida e a perspectiva económica continuar positiva".

Jornal de Negócios, 09/05/2017